DiAngellis #escrever

Sou DiAngellis, poeta e compositor, nascido em Lisboa, quando tiveram a bondade de me trazer ao mundo...Serve o blog para a divulgação da poesia.


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Por uma questão de maior facilidade de edição, criei um novo blog em http://escreverpoetas.blogspot.com/


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QUARTA-FEIRA, 17 DE SETEMBRO DE 2008


POR QUE NOME CHAMAREMOS


Por que nome chamaremos
quando nos sentirmos pálidos
sobre os abismos supremos?

De que rosto, olhar, instante,
veremos brilhar as âncoras
para as mãos agonizantes?

Que salvação vai ser essa,
com tão fortes asas súbitas,
na definitiva pressa?

Ó grande urgência do aflito!
Ecos de misericórdia
procuram lágrima e grito,

- andam nas ruas do mundo,
pondo sedas de silêncio
em lábios de moribundo.


Cecília Meireles



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MINHA MÃE


Quando a minha alma estende o olhar ansioso
por esse mundo a que inda não pertenço,
das vagas ondas desse mar imenso
destaca-se-me um vulto mais formoso.
É minha santa mãe, berço mimoso
donde na minha infância andei suspenso;
é minha santa mãe, que vejo, e penso
verei sempre, se Deus é piedoso.
Como línguas de fogo que se atraem,
avidamente os braços despedimos
um para o outro, mas os braços caem...
porque é então que olhamos e medimos
a imensa distância donde saem
os ais da saudade que sentimos!


João de Deus


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SEMPRE ALERTA


Quantos homens ficaram pelo caminho
Depois de tentarem passar?
Quantas gargantas se encheram de vinho
Para as mágoas afogar?
Quantas crianças se encheram de rosas
P'ra se deixarem, sem dó?
A quantas mulheres se prometeu o céu
P´ra depois limparem o pó?

Eu sou o sempre alerta
Vocês têm de me ajudar
Eu sou o sempre alerta
Vamos lá pôr as coisas no lugar

Quantas palavras se lançaram ao vento
Enquanto os actos dormiam?
Quantas coragens se perderam na hora
De ver que nada valiam?

Eu sou o sempre alerta
Vocês têm de me ajudar
Eu sou o sempre alerta
Vamos lá pôr as coisas no lugar


DiAngellis


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Este pequeno livro surgiu de um desafio feito aos autores de blogues, para deixarem um texto que respondesse a esta pergunta: Que é o amor?. Por ser um livro de bolso, só podíam aceitar os primeiros 58 textos. Num ápice apareceram os autores e os textos. Foi um "passa palavra" impressionante. Ainda bem que assim foi. Após terem recebido todos os textos, criaram um blogue específico para este projecto, o Que é o amor? o blogue do livro. [http://queeoamor.blogspot.com]. Não sabemos se existe outra experiência similar no mundo dos blogues, com tantos autores em simultâneo, a colaborarem num só projecto. Mas esta iniciativa tem sido uma bela aventura, muito gratificante. Poderão adquiri-lo em [ http://www.livrosnovalis.com/product_info.php?products_id=221 ]. A minha participação surge com o seguinte poema:


ELA II


Ela é bela, é pequenina
É uma flor madrugando
É rara, é boa, é menina
É uma ninfa dourada
E eu assim a vou amando
Nos seus lábios, acho a vida
Nos seus braços, a guarida
Não preciso de mais nada

Quando ela se insinua
No meu caminho, sorrindo
Logo a sinto muito sua
E muito minha, também
Ela é um campo florindo
Um suave rio de carinho
E ao senti-la adivinho
O que é amar alguém


DiAngellis

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SEU NOME ERA LUA

Seu nome era lua
E costumava passear a altas horas
Espiava a rua, e os ladrões
Que não apresentavam melhoras

Espreitava-as nuas
Correndo para o banho só para senhoras
Jogava o teu destino
E o da mulher por quem choras

Seu nome era lua
Na noite, prostrada
Lançava chamas de vida
Na carne enterrada

E sorria, alegre
Para quem a via
E velava, amante
Por quem existia

Lua nome
Nome teu
Lua Nova
Lua cheia
Amanhã há lua
Depois, há lua
E assim passas os dias
Sem veres que ela
É a tua guardiã


DiAngellis


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FALAVAM-ME DE AMOR


Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.


Natália Correia



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NÃO TE QUERO SENÃO PORQUE TE QUERO


Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Talvez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo. Nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.


Pablo Neruda


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OCEANO NOX


Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...


Antero de Quental


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QUEM PODE LIVRE SER, GENTIL SENHORA


Quem pode livre ser, gentil Senhora,
Vendo-vos com juízo sossegado,
Se o Menino que de olhos é privado
Nas meninas de vossos olhos mora?

Ali manda, ali reina, ali namora,
Ali vive das gentes venerado;
Que o vivo lume e o rosto delicado
Imagens são nas quais o Amor se adora.

Quem vê que em branca neve nascem rosas
Que fios crespos de ouro vão cercando,
Se por entre esta luz a vista passa,

Raios de ouro verá, que as duvidosas
Almas estão no peito trespassando
Assim como um cristal o Sol trespassa.


Luis de Camões


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SOB O SIGNO DA INQUIETAÇÃO


O susto em nós foi avançar
muito para dentro do proibido.
Muito para perto de uma zona perigosa
A boca da noite... o desconhecido...
Vagos caminhos de uma via nebulosa.

Vários conceitos para falar da mesma coisa
O susto em nós foi descobrir porteiras
de territórios nunca antes percorridos
No fundo de todos nós um visitante
No fundo, a falta de sentido...

Visitantes de nós mesmos cometíamos
a imprudência de quase enlouquecer
Para chegar à compreensão.
E uma coisa afiada nos conduzia
através da trilha da poesia
e do difícil trajeto da paixão....


Bruna Lombardi


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MOTIVO


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste :
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Cecília Meireles
Melhores poemas, Global Editora, 1984 - S.Paulo, Brasil


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ESTADO DE ALMA


Encontrei-me com Kafka
nos corredores da justiça.
Ele folheava os compêndios do processo,
eu aguardava o arquivista
enquanto treinava o jeito
de peitar o funcionário.
Peitar (informo para os jovens),
é suborno, chave falsa
para entrar no castelo.
Tenho gavetas cheias de letras,
selos, carimbos,
e os números tatuados no peito,
o telefone ao meu lado
querendo saltar de alegria
ao interurbano que ainda não veio.
De papéis escritos tenho vivido,
um pouco traídos pelo micro.
Quando falo, escrevo um manuscrito
na testa alheia.
Perdido em Kreutzlingen,
me respondiam em dialeto,
eu fazia gestos inúteis,
até um policial de bicicleta
me tomar o passaporte
a recitar alemães filósofos.
Fui índio no Arizona,
pária estrangeiro em toda a parte,
até aqui na fila do restaurante classe média.
Tenho lindas camisas usadas,
calças e sapatos ganhos
de amigos afortunados.
Saqueei lixo em Nova York,
onde achei a mala de náilon
e um telefone vermelho.
O que faço nesta tarde de maio?
(certo é manhã de abril)
mas a poesia é relatório cifrado
para alienígenas do espaço,
a verdade é um susto atrás das letras.
É bom meu estado de alma.
O sol resplandece nos buracos ozônicos,
tenho minha amiga barata
a conversar pelas antenas,
histórias em quadrinhos francesas
e Ulisses com castigo.

Talvez até responda cartas postergadas de Agosto,
(para ser exato: janeiro).
O telefone repousa, depois de um recado perfeito.
A música de fundo vai em um crescendo, até o beijo.

Fins felizes duram segundos.
No acetato deste poema escrevo "The End"
e saio do cinema de mãos dadas.


André Carneiro, in Virtual Realidade, 1992.


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NÃO ME PEÇAS MAIS CANÇÕES


Não me peças mais canções
Porque a cantar vou sofrendo;
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.
Se a minha voz conseguisse
Dissuadir essa frieza
E a tua boca sorrisse!
Mas sóbria por natureza
Não a posso renovar
E o brilho vai-se perdendo...
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.


António Botto


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A GOETHE


O imperecível
É apenas um símbolo da tua produção!
Deus, o insidioso,
É ob-repção de poeta¿
A roda do universo
Roda de fim em fim:
O vingativo chama-lhe Lei,
E o louco Jogo.
O Jogo do mundo, imperioso,
Mistura o ser e a aparência¿
A eterna loucura
Lança-nos nessa confusão.


Friedrich Nietzsche


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